24 de nov de 2008

Entrevista JO COENEN | Revista AU 1998

Apesar de já ter completado 10 anos de sua publicação, ainda considero muito útil e atual o que nos conta o arquiteto holandês Jo Coenen à respeito de sua formação, da arquitetura na Holanda, de sua atuação profissional e sua opinião sobre algumas cidades Brasileiras. Tomei o cuidado de reproduzir a entrevista no blog para garantir o acesso permanente a ela! A entrevista original encontra-se no site da revista AU.

AU A Holanda é conhecida por sua paisagem urbana equilibrada, pelas políticas de arquitetura restritivas e uma tradição de controle estético que sempre leva em conta o interesse social. Seu trabalho se confronta com essa tradição?

JC É difícil falar de mim mesmo. Acho que o meu trabalho tem um lado holandês. Arquitetos como Berlage, Oud e Bakema(1) não apenas projetavam prédios e edifícios, mas também se envolveram com planos urbanísticos. Berlage projetou, por exemplo, o Beurs (Bolsa de Valores) e o Diamantwerkersbond (Sindicato dos Trabalhadores de Diamantes), ambos em Amsterdã, mas também fez planos urbanísticos para a cidade. Nosso escritório faz a mesma coisa: trabalhamos com escalas diferentes, tentando cuidar de arquitetura e urbanismo ao mesmo tempo.


AU Quais foram as suas referências mais importantes?

JC Depois que me formei, foram principalmente os arquitetos de Ticino, na Suíça. Em Locarno trabalhei com Luigi Snozzi e conheci seu pensamento sobre a arquitetura e a cidade. Encontrei também Botta e Galfetti. Hoje, eles não são mais referências, tornaram-se amigos. O mesmo vale para Álvaro Siza. Estudei com James Stirling em Düsseldorf (Alemanha), logo após a minha formatura na Universidade de Eindhoven. Ele me influenciou muito. Depois de seis meses, me falou que eu já tinha estudado demais ("You are overstudied!"). Então, comecei a trabalhar, primeiro no escritório de Aldo van Eyck e, logo depois, no meu próprio escritório.

Os arquitetos de Amsterdã, Van Eyck e Herman Hertzberger, são outra referência importante. Ensinaram-me o amor pelos detalhes. Nos conjuntos habitacionais é preciso aproveitar todas as oportunidades de melhorar a qualidade, por exemplo, a entrada de luz, a vista para o entorno ou o uso múltiplo dos espaços. Esse cuidado com os detalhes faz parte da tradição holandesa de Berlage, Oud e Rietveld. Eu sempre tive muito apreço por esse envolvimento e pela racionalidade. Mas, pessoalmente, procuro a alma e a emoção do trabalho fora da Holanda: na Suíça, na Itália, em suma, na parte católica e alemã da Europa Central.


AU Como é essa relação entre a influência internacional e a tradição holandesa?

JC Esta é uma questão mais ampla. A arquitetura, que no momento chama muito a atenção no exterior, não é uma arquitetura holandesa pura. Nas décadas de 60 e 70, a arquitetura na Holanda tinha perdido o seu brilho. Arquitetos jovens tinham duas opções: viajar para o exterior para conhecer uma arquitetura inovadora ou mudar a maneira de pensar a profissão, voltando-se mais para a habitação popular, o treinamento social ou os processos políticos e de gestão. Optei pelo primeiro caminho e comecei a viajar pela Holanda e depois pela Europa, durante os anos 70-75. Na Holanda não aconteceu muita coisa; apenas a atuação do grupo Forum(2). Fui para Viena (Krier), Colônia (Ungers), Ticino e mais tarde para Portugal (Siza). Colegas holandeses da minha geração foram para outros países, trabalharam com Eisenman, Gehry; visitaram o costa oeste dos Estados Unidos e o Japão. Wiel Arets, por exemplo, trabalhou no escritório de Ando e estudou a obra de Barragán no México. De volta à Holanda, nos encontramos nas escolas, onde dávamos aulas. Trocamos experiências e informações sobre a arquitetura em outras partes do mundo. Implantamos as idéias em nossos escritórios, junto com arquitetos jovens. Foi uma época de plantar; nos anos 80 isso gerou uma safra de nova arquitetura. Outra influência muito importante foi a de Rem Koolhaas, que se graduou na escola da AA (Associação de Arquitetos de Londres) e depois passou muito tempo nos Estados Unidos. Sua influência foi mais forte na Universidade de Delft. Todos juntos, mudamos a arquitetura na Holanda. A abundância de imagens vindas de fora causou uma reação dos intelectuais, nas cidades e nas revistas. Jovens políticos começaram a promover cultura. As revistas melhoraram o nível jornalístico e a qualidade gráfica em pouco tempo. Aconteceram a Bienal de Veneza e manifestações como o AIR (Workshop de Arquitetura em Roterdã), no qual arquitetos estrangeiros como Rossi, Kleihues e Walkers desenvolveram planos para o antigo porto da cidade. Também foi uma época de concursos importantes, como o parlamento em Haia (vencido por Pi de Bruin) e o conjunto habitacional no Kruiskade, em Roterdã (primeira obra do grupo Mecanoo). Junto com inúmeros eventos e mostras, promovidos entre outros pelo Stichting Wonen (Fundação Morar) e o Droogbak em Amsterdã, órgãos posteriormente reunidos no Nai, surgiu um clima para debates sobre arquitetura e qualidade urbana. Esse período, nos anos 80, foi fundamental para ampliar e renovar o conceito da arquitetura na Holanda. Depois o "circo" de arquitetos viajantes ficou mais velho e começou a desenvolver projetos de peso. Os escritórios tradicionais fecharam ou se renovaram convidando jovens para trabalhar.


AU Esse fluxo de idéias estrangeiras também causou um reflexo, uma releitura das tradições holandesas?

JC Primeiro houve uma ruptura com a cultura dos anos 70 graças ao impulso de fora. O que mais chamou a atenção foi o lado formal, a beleza arquitetônica. De volta à Holanda, vimos a herança de Berlage, a Escola de Amsterdã (De Klerk), Oud e Van Eyck com outros olhos. Houve mostras e publicações dedicadas ao movimento moderno e a Berlage, que traziam pela primeira vez uma leitura distante, mais crítica, da velha vanguarda. O reflexo dessa redescoberta da arquitetura holandesa foi muito grande. Mais tarde, o lado social da arquitetura ganhou valor também, devido à influência de Aldo van Eyck, da Universidade de Delft e do movimento habitacional dos anos 80 e 90. Hoje, nenhum estudante sabe o que é 'estruturalismo', mas pelo menos conhece as obras-chave do movimento. Do restante, olha para Botta, Meyer, Ando. Isso principalmente em Eindhoven; Delft sempre foi mais convencional e nesse sentido mais moderna.


AU Os intercâmbios com o exterior não existem apenas no âmbito das idéias, mas se estendem para os projetos. Para os arquitetos não existem mais fronteiras. Poderia contar algo sobre sua experiência com colegas estrangeiros, por exemplo no Projecto Céramique, em Maastricht?

JC A arte não tem fronteiras e sempre os artistas viajam e levam impressões e idéias de um lugar para outro. Na Idade Média os arquitetos fizeram projetos em vários países. Neste século, Le Corbusier viajou o mundo, Berlage se formou na Suíça. Há cada vez mais intercâmbio cultural. Graças ao e-mail e aos aviões, a cultura se desenvolve numa escala mundial. Sempre procuro os maiores talentos. Em projetos como o Céramique, em Maastricht, não quero seguidores que produzem cópias. Quero trabalhar com inventores das idéias, direto da fonte. A participação de arquitetos estrangeiros é boa, enquanto os tecidos locais e sociais do trabalho e da moradia são costurados nos projetos. Apenas nos objetos isolados, como catedrais, isso não é necessário; são edifícios autônomos e cabem em qualquer lugar. Nos projetos incorporados em outras cidades, trabalho com equipes que reúnem um estrangeiro e um escritório local. Além de conseguir a melhor qualidade possível, essa prática melhora a arquitetura na região, porque os estrangeiros têm um papel exemplar e motivador.


AU Essa intensidade de contatos de arquitetos holandeses com o exterior explica o interesse internacional pela Holanda no momento?

JC Há vários fatores, como os contatos pessoais, o trabalho de instituições como o NAI e o Conselho Nacional de Arte. O resultado das odysees provocou o curiosidade dos estrangeiros. A Holanda vive um momento em que cresce a porcentagem de arquitetura crítica na produção. Os políticos e até os construtores descobriram a arquitetura. Percebem que qualidade arquitetônica aumenta o valor econômico dos projetos. Esse processo chama a atenção lá fora.


AU A Holanda é conhecida pelo controle estético e a harmonia da paisagem urbana. Todas as regras não limitam a liberdade criativa do arquiteto?

JC Sempre fiquei irritado com as regras, até o momento em que comecei a acompanhar projetos. Pensava que a Holanda deveria ter menos regras ... era organizada demais. Mas quando volto à Holanda, reconheço as vantagens da ordenação rígida. A Holanda é um país pequeno. Precisa-se pensar bem antes de fazer qualquer intervenção. Mas, não é possível resolver tudo com regras rígidas. Temos de interpretar a harmonia de uma maneira inovadora, permitindo a integração de experiências vindas de fora. Harmonia não é apenas a repetição de formas e temas; sempre há espaço para elementos novos. Visto de longe, somos orgulhosos com o equilíbrio. De dentro fica às vezes chato, rígido demais. Mesmo assim, acho que é bom manter as regras. Temos de procurar e mudar os limites dessas regras, em vez de abandoná-las.

AU Você esteve recentemente no Brasil, um país sem controle rígido das construções. Quais as suas impressões, por exemplo, de São Paulo?

JC Fui convidado pela bienal e pela revista Óculum para visitar São Paulo. Levei um susto. Nunca imaginei que uma cidade tão densa pudesse existir e sobreviver. Quando me acostumei, descobri que realmente há uma vida cotidiana na cidade. Eu percebi que contradições 'impossíveis' podem existir. Admiro isso. São Paulo é uma cidade viva. Isto é particular e inspirador. O caos da paisagem urbana pode ser compensado pela ação social. Em São Paulo sinto a necessidade de intervenção, de planejamento regional e de infra-estrutura.


AU O que achou do Rio de Janeiro?

JC Ao contrário de São Paulo, o Rio não tem a cara do comércio e da indústria, mas da topografia. Tem também uma população grande, mas a topografia quase virou um fator de sorte. Entre os morros, os vales podem se encher com urbanismo e caos, mas o relevo sempre é um limite. Essa situação tem muito charme. De certa maneira, é uma ordem. O que é realizado na Holanda com planejamento, é feito no Rio pela natureza. O Rio também comove e choca: a pobreza e as favelas são fatores dominantes na paisagem paradisíaca. Uma acusação contra a sociedade. Claro que não é culpa das pessoas. A sociedade se formou com certos defeitos, agora difíceis de superar. É como o problema das drogas na Europa. Não se pode culpar ninguém, mas existe.


AU E Brasília?

JC Fiquei muito impressionado. Enquanto o avião pousava, de repente vi aqueles esboços de Lúcio Costa realizados de verdade. Me surpreendeu e me deu nova confiança na nossa profissão. Brasília prova que o homem é capaz de fazer um discurso, um esboço, que depois pode virar até uma capital. Gostei muito das superquadras, com a divisão do transporte, o espaço verde. Não é apenas bem feito, mas funciona de uma maneira surpreendente. Outro fator deslumbrante é o cruzamento dos eixos residencial e monumental. Esse espaço não é dedicado ao pedestre. É um vazio. Mescla o espaço para sistemas mecânicos e logísticos com imagens de um ordenamento clássico do espaço, monumentalidade, perspectivas amplas e prédios importantes. Visitar Brasília é obrigatório como visitar Roma. É incrível que tão poucas pessoas, como Kubitschek, Niemeyer e Costa, fizeram a cidade em apenas três anos. Mesmo assim, não quero negar os defeitos do plano. São evidentes. O meu hotel, no centro da cidade, estava num lugar morto. No domingo, do meu quarto, não via ninguém na cidade. A tradição européia do espaço público e acessível está ausente em Brasília. Andando, descobri um pequeno shopping pós-moderno, que me salvou por um momento. Mas somente fiquei relaxado no outro lado da lagoa, num shopping muito grande, onde os brasilienses passavam o domingo. Assim, ficaram os prédios, a paisagem e o vazio como os pontos fortes de Brasília. E a falta de urbanismo como ponto negativo. No entanto, tenho total confiança que essa linda cidade dará certo. A obra de Niemeyer me comoveu tanto que comprei todos os livros sobre ele que achei. Visitei Niemeyer em seu escritório no Rio e pedi que autografasse todos.


AU Você comentou sobre os contatos internacionais dos holandeses. A Bienal de São Paulo lembra esse exemplo?

JC Senti que a bienal foi o resgate de algo que havia sido perdido, arquitetos como Oswaldo Bratke, Lina Bo Bardi, Vilanova Artigas, Rino Levi, Victor Dubrugras. Se parece com um momento na Holanda, no início dos anos 80. Temos que olhar duas gerações para trás. Claro que hoje as condições são diferentes. Não podemos construir a cidade da maneira como eles fizeram. Mas neles podemos reencontrar a força da arquitetura. As gerações passadas nos ensinam sobre nós mesmos. Isso aconteceu na Holanda e está acontecendo na Bélgica e na Alemanha também. É um processo vagaroso redescobrir a arquitetura e depois convencer e mudar a mentalidade dos empreiteiros, governos e políticos. Mas compensa.


AU E o intercâmbio entre o Brasil e a Europa?

JC Em termos de visitas, estudos, manifestações e estágios me parecem interessantes e valiosos. Na Europa, temos de aprender muito com os brasileiros, a maneira como pensam e trabalham. Não existem problemas climáticos, como na Holanda, e o clima abençoado do Brasil se reflete na arquitetura. Dá uma liberdade, uma organização espacial muito livre. O espírito das pessoas, a alegria, o prazer pela vida e o jeitinho brasileiro me atraem. Também se reflete na arquitetura, que é leve e alegre. Como a rampa na bienal de Niemeyer, reforçada por Paulo Mendes com a pintura em amarelo. Ou a rampa do Museu de Niterói, fantástica. Parece-me impossível que tenha sido criada por um arquiteto com mais de 85 anos. Com tanto potencial, daqui a 50 anos o Brasil poderá ter melhores condições que a Europa. A Europa sofre de uma overdose de organização e vai enfrentar problemas sérios. Paulo Mendes da Rocha acha Berlim uma cidade fria, demasiadamente detalhada, sem a alma de progresso. É isso que sinto nas culturas européias. Berlim é rígida demais, os projetos têm um acabamento bonito, mas não uma estrutura com movimento. O Brasil tem um potencial na sua desordem. Como Medellín e Bogotá. Os problemas são graves, o crescimento é forte. Mas existe uma flexibilidade necessária para construir identidades. Talvez isso tenha sido a principal lição do Brasil para mim.

No final dos anos 70, quando Jo Coenen surge no mundo da arquitetura, o panorama holandês já se encontrava marcado por tendências estéticas internacionais, promovidas pela abertura a profissionais estrangeiros consagrados. Havia também no país uma tendência de renovação urbana mais sensível, voltada às necessidades dos cidadãos. Coenen torna-se rapidamente figura proeminente nesse cenário, justamente num momento em que a juventude e suas atitudes vanguardistas são enaltecidas. Formado pela Universidade Tecnológica de Eindhoven, em 75, o arquiteto sedimenta seus conhecimentos ao lado de nomes de expressão com importantes projetos arquitetônicos, como a sede do NAI (Instituto Holandês de Arquitetura), em Roterdã, a Câmara de Comércio de Maastricht e conjuntos de apartamentos em Haia. Desenha vários planos urbanísticos, entre os quais o de Schilderswijk, em Haia, para o qual desenvolve também um sistema de pré-fabricação para padronizar os elementos de fachada. E o de Maastricht onde, mais recentemente, projetou a reurbanização de 40 ha que pertenciam à indústria Céramique, demonstrando ser possível criar uma síntese entre o tecido medieval da cidade e as radicais estruturas urbanas pregadas pelo Ciam. Presente com uma ampla sala na 3a Bienal de Arquitetura de São Paulo, em novembro passado, Coenen iniciou uma conversa com AU ainda no conturbado auditório onde havia proferido sua palestra. A entrevista, no entanto, foi concretizada por telefone, um mês depois. Nela, um pouco da história pessoal, das fortes relações profissionais entre os definidores da arquitetura moderna holandesa. E suas impressões do Brasil.

Notas da edição


1- H. B. Berlage (1856-1934) é considerado um dos pioneiros da arquitetura moderna. Desde o início usou formas simples, distantes de referências históricas. Sua estética prenunciou o expressionismo e a escola de Amsterdã. Foi também urbanista

Jacobus Oud (1890-1963) ligou-se desde 1916 ao movimento De Stijl, em que prevalece o funcionalismo. Como urbanista projetou três cidades operárias na Holanda.

Jacob Bakema (1914-1981) foi membro do Team X (contrário às diretrizes dos arquitetos do Ciam) e co-editor da revista Forum. Sua arquitetura sofreu forte influência dos ideais filosóficos e formais do grupo De Stijl. Também foi urbanista, intervindo principalmente em Roterdã.

2- Grupo Forum, formado por arquitetos que lançaram a revista Forum, como Hertzberger, Bakema, Van Eyck. Divulgava idéias novas sobre habitabilidade, identidade e tratamento mais humano de problemas estruturais.

PAUL MEURS

Colaboraram Ana Luiza Nobre, Haifa Y. Sabbag e Marcos de Sousa.

Nenhum comentário: