7 de ago de 2008

VILA MARCO AURÉLIO | HABITAÇÃO COLETIVA INTELIGENTE EM SÃO PAULO


PROJETO DE VILA PROVA QUE MUITOS CONCEITOS IMPOSTOS PELO MERCADO NEM SEMPRE SÃO OBRIGATÓRIOS E PÕE ABAIXO A TESE DE QUE SÓ O RECUO LATERAL GARANTE PRIVACIDADE E ILUMINAÇÃO NATURAL.

Nem casa isolada, nem apartamento", avisa José Armênio de Brito Cruz. O novo modelo de moradia arquitetado pelo sócio do Piratininga Arquitetos Associados é a leitura contemporânea da antiga casa geminada de vila. Ele trás de volta a edificação coletiva horizontal, em pavimentos, e em nome da ocupação racional rompe com os convencionais recuos laterais impostos pelo mercado. "É uma evolução do conjunto assinado pelo professor João Vilanova Artigas na rua Sampaio Vidal, em 1944", revela o ex-aluno da FAUUSP a sua fonte de referência, dizendo ainda beber da água do mestre.

O sistema arquitetônico desenvolvido pelo escritório nasceu da reforma de uma casa pequena no Jardim Europa, em São Paulo, que deveria ter espaços fluidos e só tinha a chance de captar a luz pela frente e por trás do bloco. O modelo foi aperfeiçoado, alcançando uma matriz repetível que se adequa à maior parte dos terrenos. "O novo conceito de moradia está sendo introduzido em áreas valorizadas da cidade, em lotes caros e com infra-estrutura", enfatiza. A planta flexível pode ser personalizada, atendendo aos diversos tipos de programas, necessidades e etapas da vida.

"A proposta viabiliza custos, agiliza a obra e foge da tradicional fórmula de condomínio", explica o arquiteto que se indigna com a forma da arquitetura atual. "Ela ocorre como objeto isolado da cidade, escondendo o valor da terra, os medos, as coragens e a maneira de viver do morador. 'A cidade se desenha coletivamente', dizia Artigas".

O sistema busca uma arquitetura mais social, resgatando o desenho urbano, preservando as características do bairro onde for construído e incentivando o convívio pacífico entre a casa e a cidade. "Quem deve cuidar da rua é o morador", alerta Brito Cruz, recriminando as opressoras muradas – próximo paradigma a ser quebrado em breve pelo escritório –, que isolam a vida social. "O paulistano deve fugir do conceito de chácara. A separação só aumenta a violência. A cidade é o reflexo de nossos desejos. As pessoas precisam aprender a viver juntas. É bom conviver com as diferenças", acredita.

Adepto de soluções simples, mas inteligentes, que asseguram eficiência arquitetônica, o projeto assinado pelo escritório derruba os principais tabus propagados pelo mercado contra a habitação coletiva, como a falta de privacidade e luz. Recorrendo às paredes duplas recheadas de lã de rocha e amplas aberturas frontais e posteriores a cada unidade, o projeto garante o conforto desejado ao usuário.

Projeto universal

Por ser um sistema versátil, a proposta desenvolvida pelo Piratininga Arquitetos Associados foi delineada de maneira a atender aos anseios de qualquer construtor ou incorporador. "O processo construtivo, o número de unidades, cômodos e pavimentos fica sob a decisão do empreendedor", explica. A primeira versão do modelo da casa coletiva, erguida em um ano e um mês no terreno que abrigava o antigo galpão da Lorenzetti, na Vila Romana, em São Paulo, foi a resposta do escritório a investidores que queriam um empreendimento diferenciado. "A idéia foi aceita justamente pelo fato de as casas serem coladas", explica. O projeto originou uma habitação com 11 casas de 182 m2, quatro voltadas para a rua, a um custo em torno de 250 mil reais cada. Segundo Brito Cruz, o preço pode chegar a até 1 milhão de reais, de acordo com o custo do terreno e do projeto.

A estrutura da edificação pode ser tanto de alvenaria estrutural quanto de pilares e vigas de concreto preenchidos por blocos – o caso da Vila Romana. No térreo, onde está a garagem, pilares recuados e uma viga em balanço sustentam as paredes-limite de cada unidade e liberam espaço para a manobra dos carros. Nas unidades, a pré-laje apoiada nas paredes- limite agüenta o vão (nesta versão, de 6 m) criando espaços amplos que podem ser divididos conforme o programa do cliente.

Na parte frontal e posterior do edifício, as vigas são invertidas, servindo de peitoril no vão desejado do caixilho. Já entre as unidades, as vigas foram instaladas do modo convencional, possibilitando a unificação de mais de uma unidade sem o obstáculo. A escada é fixa e leve, nos moldes da escola paulista de arquitetura, e liga todos os pavimentos, distribuindo luz natural proveniente do caixilho metálico que dá acesso ao solário.

Grandes esquadrias metálicas repetem-se nos pavimentos fechados, sendo preenchidas no piso social por vidros e na ala íntima por venezianas de madeira, ambos de correr. "Nada de vitrôs e aberturas pequenas. A janela é uma só e se adapta à produção racional, reduzindo gastos e dando maior praticidade à execução", prega o arquiteto. "Por que a cozinha deve ser sempre fechada e escura?", questiona, afirmando que o modelo introduz novas maneiras de viver.

Os banheiros estão localizados no meio da unidade, possibilitando a colocação de forros para a passagem das instalações. Eles recebem iluminação e ventilação naturais pela clarabóia acima do solário. O lavabo é fechado e tem uma ventilação acima do forro e diretamente conectada ao caixilho externo.

No último andar, está o solário com área de lazer privativa para cada unidade. No projeto da Vila Romana, o pavimento foi ocupado por ofurô e churrasqueira. Conforme o tamanho do terreno, é possível prever a criação de áreas comuns para os usuários. No fundo das unidades, há um jardim íntimo.

A segurança ainda tão ansiada pelos cidadãos metropolitanos é assegurada por uma cerca transparente de elementos vazados, também utilizados para delimitar a área de serviço. Ela protege e faz a integração com o exterior, reduzindo o constrangimento causado pelos muros maciços e altos de alvenaria.


Confira matéria completa com imagens e desenhos na REVISTA AU n.157 | Março de 2007.


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